terça-feira, 10 de julho de 2012

Capitulo XI

John toma seu café, junto de Guinneviere.
- John, hoje eu tenho uma entrevista.
- Aonde?
- No centro. Uma empresa de logística.
- Mas não vai atrapalhar seus estudos?
- Vai e não vai. Se eu não for, meus pais já deram o últimato de que eu preciso conseguir o emprego, ou então eles não conseguiriam mais pagar a faculdade.
- Bom, boa sorte. - John olha para o copo vazio. - Só não sei quem vai lavar a louça.
- Você podia ser legal às vezes, sabia?
- Mas eu sou legal sempre. Você que não reconhece.
- Ok, John. Vou me arrumar.
Guinneviere se levanta da mesa, coloca os talheres sujos na pia, e volta para o quarto. John fica parado, ainda olhando o copo. Ainda revendo todos os momentos vívidos do sonho anterior. Durante o transe, ele se levanta, vai até a pia e começa o ritual de lavar a louça. Ensaboa. Enxagua. Ensaboa. Enxagua.
No fim do processo, John se depara com um bilhete amarelo na geladeira.
"15:00, estúdio RF".
- Guinne! - John grita.
- Oi? - Vem a voz de Guinneviere, do banheiro.
- Esse bilhete na geladeira, o que quer dizer?
- Ah, sim! Quase esqueço. Você tem gravação hoje, nesse estúdio. Parece que alguém viu você tocando no bar de noite, e quer que você faça uma participação em um albúm. Não sei, mas me parecia coisa maior que tocar em bar.
- E isso está marcado desde quando?
- Ligaram no sabado.
- Que dia é hoje?
- Nossa, John! Segunda.
- E você só avisa agora? Ainda porquê eu perguntei.
- Por isso eu tinha deixado o bilhete!
- Tudo bem. Termine de se arrumar antes que você se atrase!
John olha para o case de sua guitarra.
- Temos trabalho.



John sai, acompanhado de sua guitarra e Guinneviere. Após se separar de Guinne, John se caminha ao ponto de onibus, onde se senta e aguarda.
- Sabe John, essa é uma das poucos habilidades que eu admiro em você.
- O que? Esperar o onibus?
Neste momento, ele está sozinho no ponto.
- Sim, claro. Poucos conseguem fazê-lo. Estou falando dos seus dotes musicais, John.
- Meu onibus.
John se levanta, entra no onibus e se senta nos últimos bancos, onde consegue observar as pessoas que chegam e que passam na rua. Uma senhora carrega um saco de laranjas no banco da frente. Um garotinho fica olhando pela janela, admirado com o cenário passando em seus olhos. Na rua, uma mulher sacode uma toalha de mesa em frente a um bar. Uma garota anda apressada. Animais voam, correm, se escondem e saem do trabalho para o almoço. Tudo isso é o que se passa na mente de John, exceto um detalhe. Algo que ele é obrigado a concordar e refletir.
"A vida é aquilo que você faz dela".
Uma inscrição nas costas do banco da senhora com as laranjas.
John desce do onibus em frente a um grande prédio branco, um banco. Ao lado do prédio, há uma pequena porta preta com um toldo escrito "RF Studio".
- Vamos ver o que faço da vida.
John aperta o interruptor de uma caixa branca e ouve um pequeno apito.
- Quem é? - Diz uma voz através da caixa.
- Sou o John. Recebi uma ligação para uma gravação.
- Ah, o rapaz das cordas, certo?
- Isso. Eu acho.
- Espere um instante, meu jovem.
A porta faz um estalo, um trinco se abre. John ouve o barulho da chave girando, algo desliza, algo estala e uma série de sons metálicos ocorrem até que a porta se abre. Um senhor calvo, com seus poucos cabelos brancos e um par de lentes que cobrem boa parte do seu rosto encara John. O senhor limpa sua mão ossuda na camisa branca encardida e a estende para John.
- Bom dia, Sr. Riley! Quinze horas e sete minutos. O senhor não é tão pontual.
- Por sete minutos? - Riley se espanta com a primeira mostra de rigorosidade.
- O recado deixado à Sra. Guinneviere, que por sinal foi muito simpatica, dizia claramente que sua presença era requisitada às quinze horas.
- Mas...
- Não se preocupe. - Interrompe o senhor - Estou em tratamento por conta do meu metodismo. Mas que o senhor está atrasado, está.
- Entendo. Mas o seu nome seria?
- Perdão! Perdão! Me esqueci completamente dos modos! Isso me custaria um dedo se minha querida mãe estivesse viva! - John percebe a tremedeira do senhor enquanto fala quase atropelando as palavras. - Sou Roust Farr, filho de Carmelina Souza Farr, mulher falecida de meu pai, também falecido, Rauter Farr. E por favor, entre!
O senhor abre mais a porta, dando espaço o suficiente para John passar por ele. John se adianta e avança pelo batente da porta que é fechada assim que ele passa com o estalo metálico de várias trincas se fechando ao mesmo tempo.
- Por favor, Sr. Riley, por aqui.
Ele segue o senhor por um corredor de cimento queimado até uma escadaria, que os leva para o andar superior até uma porta de madeira maciça.
- Este é um prédio antigo. Um antigo abrigo que minha família construiu para se abrigar em caso de guerra. Mas num país tão imparcial quanto o nosso, nunca foi preciso utilizá-lo para o fim que foi feito.
Roust pega o um grande molho de chaves que estava pendurado em seu suspensório e o analisa com cuidado até que escolhe uma chave e abre a porta.

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