terça-feira, 10 de julho de 2012

Capitulo X

"O mundo é mágico. Tantas coisas acontecem sem nos darmos conta. Tantas coisas acontecem e nos damos conta, mas não sabemos explicar.
Hoje, em especial, não sei explicar muita coisa. Hoje, em especial, já não sinto vontade de tentar explicar. Hoje, em especial, eu acordei, de novo, do mesmo sonho."
- Esses jovens, sempre vandalizando nosso patrimônio! - Diz uma senhora, observando as inscrições feita à tinta de caneta nas costas de um banco do ônibus. - Deve ser mais um desses drogados, na certa.
- Pois é. - Ela respondeu.
- Vou te contar uma coisa, meu marido é polícia. Ele sabe a cara desses moleques que fazem essas coisas. Minha cunhada levou o sobrinho dela, filho da irmã dela, lá em casa. Meu marido só de olhar para a cara do rapaz já sabia que ele era um desses drogados que usa maconha e crack e cocaína. Com certeza deve ter um banco com os rabiscos dele. É o que eles fazem, sujam tudo.
- Pois é. - Ela respondeu.
- Uma jovenzinha assim, como você, ah, é de partir o coração saber pelo o que você vai passar. Vão te oferecer muito ainda dessas drogas, mas você é bonitinha, deve saber que não se pode usar isso, porquê é um caminho sem volta. Meu marido ia gostar muito de você. Você lembra de mim, quando eu era jovem também. E eu não usei drogas, então..
- E hoje está abrindo sua vida para uma desconhecida no ônibus, que não lhe fez nenhuma pergunta. O que prova sua carência, e faz com que eu tenha certeza de que seu marido não lhe dá atenção. Mas você gostaria que desse, por isso fala tanto dele. Cultos aos domingos na igreja católica, pela sua bíblia e suas roupas. E é católica desde criança, por isso é preconceituosa ao ponto de não ter reparado que fui eu que escrevi no banco.
A senhora observa a garota, estupefata e não consegue dizer nenhuma palavra.
- Eu desço no próximo. Com licença.
O mundo é mágico.
Ela desce, ajeita o óculos. Para no café da esquina. Expresso duplo sem açúcar. Um gole. Respira. Outro gole.
Enquanto isso, um senhor se levanta para pagar sua conta. Aliança de casamento cheia de marcas, mãos machucadas, uma camisa branca velha, e calças sociais que devem ser tão antigas quanto o próprio senhor. Um homem que faz trabalhos braçais, provavelmente em uma metalurgica, pelas mãos machucadas. Viúvo, pois a aliança lhe faz lembrar da mulher. Se ela estivesse viva, ele tomaria mais cuidado com o anel. Ainda não conseguiu a aposentadoria. Paga a própria bebida com algumas moedas.
É assim que ela vê o mundo. Causa e consequência.
Um mundo mágico.
Magicamente seu telefone toca.
- Oi, mãe.
- Carolina, você vem pro jantar de aniversário do seu pai?
- Tenho alternativa?
- Tem. Mas você sabe que seu pai vai ficar chateado se você não aparecer de novo. Você já não veio no jantar que fizemos para sua irmã. O que você tanto faz que te ocupa assim?
- É, não tenho alternativa. Eu vou, tchau mãe.
- Então tudo bem. Tchau, Carol.
Um gole. Respira. Outro gole.
Ajeita os óculos, vai até o balcão, paga pelo café e vai embora. Não sem antes reparar que a atendente tinha uma leve alergia no pescoço à corrente que ela insistia em usar.

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