O sol ainda é forte. Em certos pontos da cidade é só mais um dia calmo. Em outros, a fúria de informações recai em mesas, com formato de papel.
É desta monotonia e deste caos que Riley foge hoje. Informação é uma coisa que se precisa, em todos os sentidos. Às vezes é necessária perto, às vezes não.
Então, ele vai para seu lar: A Pedra De Outono.
Saindo da estação metroviária, ele pega um ônibus com destino à sua imaginação. Apenas uma bagagem ele carregava. Seu violão. Acompanhante de fileira nos bancos.
Riley assenta-se e reclina a cabeça sobre a janela. Só pode ver uma coisa antes do ônibus partir: Um homem de olhos fixos nos seus. Seu olhar só demonstrava um desespero. Como se Riley fizesse algo terrível.
Riley simplesmente tenta se segurar. Porém uma força maior agia sobre ele. Uma lágrima escorre, desenhando um caminho de descontentamento em seu rosto.
- O que tem em mente Riley?
A pergunta feita no metro foi repetida no ônibus. Mas com um maior impacto neste momento.
-Eu quero dar o fora cara. Eu me cansei.
Para os outros passageiros, Riley se tornou um louco. Está conversando sozinho.
- Novamente? - Mas é um louco que obtém respostas. Ou talvez perguntas certas.
-Novamente, se preciso. Eu cansei de acordar enquanto durmo.
- Você sempre volta lá; sempre foge das mesmas coisas. - O vulto negro sentado ao lado de Riley se ajeita no banco. - Sempre fugindo...
-Eu cansei de bater, e ver o sangue na mão.
- O sangue é a linha da vida, Riley. Ele é o que te mantém em pé. Lutar é a idéia partindo para o plano real. Querendo ou não, o sangue vai estar em você. O vendo ou não.
-Eu não tô a fim de ter aqueles pesadelos de novo.
- Encare-os! Ao invés de tentar sair de onde eles vem, vá ao seu centro. Descubra se o que você vê não passa somente de um medo. E convenhamos, de medos eu entendo.
-Eu cansei de correr e chegar a ponto algum. Se for pra ser na porra do sonho, que seja logo - Vou te contar a história de um cara conhecido como JR.
"JR, digamos que ele era um jovem muçulmano. Que conheceu os prazeres e as raivas da vida; e que após experimentar do fruto sagrado...”.
- Eu acho que isso é Adão e Eva.
- Não interrompa John
- Ta certo...
-Ele achava que o mundo era bom e justo
- E o que eu tenho a ver com isto?
- Ora John... JR. John Riley. Você não conhece sua própria história?
-É um mundo tão pequeno, que me esqueço de quem sou...
- Todos esquecem John... Todos esquecem.
-Até você?
- Eu nunca fui além de uma memória. E aqui, para os outros, eu não existo, e você é um louco que conversa sozinho.
-É sempre assim mesmo.
-Talvez seja eu a sua consciência?
- Se você não sabe o que é, talvez eu muito menos. Mas acho que devem te encarar como um amigo imaginário.
- Amigos imaginários não conseguem fazer isto.
O vulto some, e de maneira inexplicável a moça sentada atrás de Rele se aproxima do encosto dele e diz em seu ouvido:
- Eu sou muito melhor que amigos imaginários.
A moça para, olha novamente e pede desculpas a John, que somente faz um aceno com a cabeça.
-Se você quiser, eu posso conversar com você. John Riley...
-Meu nome é Ravena, disse ela.
-Ravena, que nome bonito...
-Minha mãe também acha, apesar de eu considerar um tanto estranho.
-E como você sabe meu nome?
- Eu ouvi você falando com seu... é... "Amigo imaginário".
- Ele ficaria revoltado se ouvisse você falando isto.
- Hã?
- Nada não.
- Quem é você Ravena?
-Sou uma menina...
-Como todas as outras?
-Bem, eu não tenho amigos imaginários.
John Riley nota na mochila de sua nova amiga, bottons de bandas, e vê algum em comum.
-Audioslave ?
-É, eu gosto...Mas prefiro ainda Soundgarden.
Você tem um ótimo gosto musical Ravena.
- Há quem diga o contrario.
- Mas há quem diga a verdade também.
- Posso me sentar?
- Claro! Desculpe minha falta de percepção.
- Falta de percepção? Pra que tanta formalidade? Não estamos em um tribunal.
- É só o costume mesmo.
John Riley não estava em um tribunal, mas se sentia um réu da vida. Tudo o que via o condenava...
- Está indo para onde, senhor Riley?
- Pedra De Outono, no Sinal 30
- Lugarzinho deserto esse, hein.
- Eu Sei Ravena, mas, eu gosto de lá. Eu posso ser imortal lá.
- Um louco imortal? - Ela esboça um sorriso - Ja vi muitos caras assim.
- Mas, eu sou um diferente. Eu tenho um violão e muito SkaReid.
- Grandes loucos existiram, e hoje tem seus nomes imortalizados. Digamos assim... Raul Seixas.
- Eu sei, mas, esqueça de mim, para onde vais ?
- Bom... Eu estou simplesmente indo para o mais longe que puder.
- O que se passa ?
- Bem... Na verdade, é, nada. Somente estou viajando. - Ela tenta abrir um sorriso novamente.
- Sério ?
- É o que as pessoas fazem, não é?
- Nem sempre - Riley, olha a menina mais intensamente, ele vê suas botas, sua saia, sua camisa meio amassada e marcas no braço, que se suspendiam pelos olhos negros e cabelos ruivos, chegando a uma boca carnuda e sensual.
- Quem te fez isso?
Ela olha para os braços, tenta esconde-os um pouco
- Isto? Cicatrizes de criança. Minha época de pulos mal-sucedidos sobre muros.
- Vero vero, ou vero que resultou uma viagem ?
- Pode ser. E o que te leva aos confins do sinal 30?
-Tentar arrumar minha vida, e acho que você também precisa, vem comigo ?
- Deixe me ver... - Ravena puxa uma agenda da mochila, abre em uma pagina completamente em branco. - É, acho que se encaixa no meu horario, pode ser.
- Que propício, me lembras de um amigo meu, um Clown nato - Olha para os velhos olhos cansados - Um grande amigo.
- E o que aconteceu com ele?
- Posso contar pra ela ?
- Ela quem?
"Seja mais discreto, John"
Ecoou dentro da cabeça de Riley.
- Perdoe-me...
- A ta. Seu amigo "imaginario" novamente?
- Você não iria acreditar no quanto ele é real.
- Sabe, eu sempre achei interessante esse lance de misticismo, mas sempre fui muito cética para este tipo de coisa.
John sorri friamente para ela e diz duas palavras:
- Uma brincadeira.
Após isto, a pessoa da poltrona um diz:
- Ravena.
A da segunda poltrona:
- Eu
A da terceira:
- Não.
A da ultima poltrona do onibus:
- Duvidaria.
Ravena se encolhe no banco. As pessoas começam a se entreolhar, assustadas. Não sabem o que fizeram, mas se ouviram.
- Meu Deus! John... eu... eu...
- Relaxe.
Ravena esmaeceu, se sentiu desnorteada. Nunca tinha visto algo igual, ainda mais com um estranho se mostrando daquela forma. Mas passou o resto da viagem em silencio. Próximo ao sinal 30 John pega seus objetos e se direciona à porta de saida do onibus.
- E ae, você vem?
-Com certeza vou - disse Ravena, se encolhendo cada vez mais.
O ônibus deixa John e Ravena numa estrada, cercada por um balneário litorâneo, então, andando a 10 minutos, Riley e a Moça, estão na Pedra De Outono, passando antes pelo Sinal 30, que é uma grando muralha de pedra escrita "Pax Et Lux"
- E onde é que você vai exatamente? - Ravena tenta puxar novamente assunto com o novo "amigo"
- Sentar, beber um vinho, e tocar um violão, pra fugir dos maus pensamentos. Me fala mais de ti e dessas chagas.
- Bom... Pelo visto elas não serão tão imprecionantes quanto o que eu vi la dentro. Mas se eu te contar, você me explica melhor do teu amigo?
- Com certeza.
- Bom... à mais ou menos duas horas minha mãe estava amarrada no quarto de casa. Meu pai estava a espancando, e quando eu vi o que ele estava fazendo, bom - Ela mostra os braços - acho que da para você entender.
- E você diz isto com toda esta calma?
- Bom. Não é a primeira vez que meu pai espanca minha mãe. E também - Ela levanta a blusa e mostra uma cicatriz - Minha mãe ja tentou me matar antes. Os médicos dizem que eu sobrevivi por um milagre.
- E ela continua com a sua guarda?
- Ela disse que eu tropecei e cai com a faca na mão. E como eu não estava presente e sabia que se eu dissesse algo quando chegasse em casa, talvez não saisse mais de lá, resolvi deixar por isto mesmo. - Ela respira - Minha mãe diz que eu fui o maior erro dela.
- Nossa...
- Dessa vez eu resolvi sair e não voltar mesmo.
- Vem comigo Rae ? podemos ser um trio. - Ele para um pouco. - Ou melhor, quarteto.
- Quarteto?!
- É. Eu quase esqueço do meu camarada que você conheceu à pouco.
- E quem seria o terceiro?
- Bom... - Ele levanta da uma batida na capa onde está o violão. - Meu outro amigo inseparável.
- Ah! Claro.
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